terça-feira, 21 de setembro de 2010

O outro 11 de Setembro: uma memória em silêncio.


Resumo:

O presente artigo tem como objetivo discutir as memórias construídas em torno da data 11 de setembro, percebendo a sobreposição de memórias e construção de uma memória hegemônica em torno desta data. Para isso tomando por base o silenciamento, e o consequente desconhecimento em torno dos acontecimentos do dia 11 de setembro de 1973 no Chile, em detrimento a supervalorização feita pela mídia sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.
Palavras-chave: 11 de setembro, Salvador Allende, Chile, memória, mídia.

Todos de alguma forma têm algum conhecimento acerca desta data, pois desde os atentados ocorridos nos Estados Unidos, no dia 11 de setembro de 2001, fomos e ainda somos bombardeados por informações que elegeram esta data e este fato, como um marco dentro da história da civilização ocidental. Assim dentro da sociedade moderna globalizada, regimentada pelo primado da informação e da comunicação, uma memória foi construída acerca desta data. No entanto, dentro da história trabalhamos sob a égide da pluralidade de sentidos, de vozes, de memórias; de forma que somos levados a procurar e perceber os mecanismos que se engendram no sentido de afirmar certas memórias à medida que silenciam-se tantas outras. Sabendo que este processo de afirmação e silenciamento não ocorre de forma natural e despropositada, mas é representativo dos conflitos e acertos que tecem a história e a sociedade.

Nesse sentido, e que este artigo busca trabalhar e problematizar um outro 11 de setembro, que é quase de total desconhecimento do grande público, também de cunho trágico, todavia ocorrido em outro espaço, e que representa outra memória, hoje silenciada e esquecida. Onde no dia 11 de setembro de 1973, por meio de golpe de estado tem fim o governo da Unida de Popular, e a vida do presidente chileno Salvador Allende, marcando a instalação no poder de uma das ditaduras mais cruéis da história da América Latina, através da figura do general Augusto Pinochet.

Assim 28 anos antes do tão divulgado e debatido 11 de setembro de 2001, onde a mídia apressou-se em divulgar e disseminar amplamente o discurso norte-americano de que os atentados atingiam a liberdade e a democracia mundial, construindo uma memória hegemônica; os mesmos norte-americanos estiveram diretamente envolvidos no golpe de estado e nos atentados ao Palácio de La Moneda em Santiago no Chile, que além de destruir prédios e ceifar vidas, destruiu o sonho de milhões de cidadãos chilenos de construir um governo socialista democrático, mais justo e igualitário, em meio a um mundo dominado pelas democracias liberais.

O governo de Salvador Allende: a “via chilena para o socialismo”.
Até o ano de 1973 o Chile era um caso diferenciado em relação aos outros estados nacionais da América latina. Pois ao contrário da história política dos outros países, permeada de golpes militares, o Chile gozava de um governo estável, eleito democraticamente, e garantido pela constituição de 1922, mantendo suas Forças Aramadas numa relação de respeito ao poder do governo. Sendo que em 1970 o Chile entra para a história ao levar a presidência Salvador Allende, o primeiro marxista a chegar ao poder através do voto democrático em um país ocidental.

Após três derrotas em eleições presidências, em 1952, 1958 e 1964, Salvador Allende assume o governo no dia 03 de novembro de 1970, como candidato de uma coligação de esquerda intitulada Unidade Popular. Durante seu governo Allende inicia a chamada “via chilena para o socialismo”, implementando uma série de mudanças no Chile, sendo a principal delas a nacionalização das minas de cobres, principal riqueza do país, que se encontrava quase toda nas mãos do capital estrangeiro. Também transferiu o controle dos serviços de telefonias e das minas de carvão para o Estado. Reestruturou a educação e iniciou o processo de reforma agrária, desapropriando grandes faixas de terras improdutivas, repassando-as aos camponeses. E efetivou um projeto onde cada criança chilena receberia meio litro de leite por dia, até completar oito anos de idade.

No entanto, suas reformas mexeram com o interesse de muitos, principalmente dos Estados Unidos, tanto por suas corporações como pelo governo que envolvido na Guerra do Vietnã, não logravam aceitar outro pais socialista dentro de sua área de influência Em 1982, Henry Kissinger o secretário de estado do presidente norte-americano Richard Nixon, disse: "o Chile (com um esquerdista) tinha a possibilidade de subverter outras nações de forma mais acentuada que Cuba”. Assim, logo após o lançamento destas propostas espalha suas reservas de cobre no mercado mundial, provocando uma crise na economia chilena, e afetando a implementação plena de suas propostas.

Inicia-se então um conjunto de ações do governo norte americano no sentido de desestabilizar a economia chilena, jogando a população contra o governo e forçando as Forças Armadas a assumir o poder, o que se fez em setembro de 1973. Assim em setembro de 1972, inicia-se uma greve geral dos caminhoneiros, idealizada pelo grupo paramilitar chileno Patria y Libertad, sendo financiada pela CIA e multinacionais norte- americanas. A paralisação atinge brutalmente a agricultura e o comercio do país, impedindo o plantio da safra deste ano e o abastecimento de gêneros de primeira necessidade nos comércios.

A partir disso clima fica tenso dentro do Chile, dividindo a população entre os partidários do Movimento da Esquerda Revolucionária e o movimento de direita Patria y Libertad. Assim no dia 29 de junho de 1973, ocorre uma primeira tentativa de golpe contra o governo de Allende. O movimento golpista fracassa, após ser descoberto pelo chefe do exército general Prats, que acaba renunciando ao cargo por pressão popular. Sendo substituído por um antigo militar, o general Augusto Pinochet, escolhido por ser considerado apartidário e de confiança. Era o ensejo do novo golpe que se arquitetava, dessa vez com o final trágico.

11 de setembro de 1973: a morte de Allende e o adiamento do sonho.
"Não tenho condições de ser um mártir, sou um lutador social que cumpre uma tarefa dada pelo povo. Entendam, porém, aqueles que querem fazer a história retroceder e desconhecer a vontade da maioria do Chile: sem ter carne de mártir, não darei nenhum passo atrás... Somente a balaços é que poderão impedir a vontade que é fazer cumprir o programa do povo."
(Salvado Allende, alocução às 08h45min, de 11 de setembro de 1973.)

Na manhã de terça feira, do dia 11 de setembro de 1973, as forças armadas chilenas sob o comando do general Pinochet e como o apoio financeiro dos Estados Unidos, atacam o Palácio de La Moneda, sede da presidência chilena, dando cabo ao golpe de Estado, que põe fim ao governo democrático eleito três anos antes.

O movimento teve inicio na madrugada do dia 11, com a rebelião militar que prende o comandante chefe da marinha, tomando as cidades litorâneas de Valparaíso, Viña del Mar e Talcahuano. Após isso, o exército toma a capital Santiago, sob o comando da Junta Militar liderada pelo general Augusto Pinochet, o almirante José Toribio Merino, o general de aviação Gustavo Leig, e o chefe de polícia César Mendoza.

Ao tomar conhecimento do golpe que se desencadeava, o presidente Allende se encaminha para a sede do governo, onde é intimado a renunciar ao cargo, sendo oferecido para isso refugio a ele a sua família no exterior, em telefonema feito pelo próprio Pinochet. Salvador Allende não aceita a proposta, e em um discurso feito rádio Magallanes, pedi aos trabalhadores chilenos que ocupem as fábricas, sem para isso incitá-los a armas. A essa altura a frente do palácio presidencial já estava tomada pelas tropas golpistas, e dentro do palácio de armas em mão o presidente e alguns membros de sua segurança, cerca de trinta homens, buscam resistir a ofensiva do exército golpista.

Por volta das 9:15 da manhã, tem inicio os primeiros ataques ao Palácio de La Moneda, sede do governo desde 1964. Após horas de confronto, e antevendo o fim trágico que lhe aguardava, Salvador Allende convence seus aliados a deixarem o prédio, com a promessa de deixar por último o local. E enquanto aviões já sobrevoavam o céu de Santiago, o presidente transmitiu sua última mensagem em rádio, um dos últimos atos públicos do seu governo. Hoje é possível encontrar na internet, tanto o texto como o áudio deste último discurso de Allende:

“… Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."
(Últimas palavras de Salvador Allende à Nação, na manhã do dia 11 de Setembro de 1973).

Enquanto ocorriam os ataques a sede do governo chileno, o exército sob o comando da Junta Militar, realizavam grandes operações nas regiões operárias de Santiago e nas cidades próximas, desfazendo qualquer possibilidade de resistência civil.

Ao meio dia iniciam-se os primeiros ataques aéreos. Os jatos Hawker Hunter da força aérea chilena disparam sobre La Moneda, e após consecutivos ataques, o prédio começa a arder em chamas. Por volta das 14 horas, enquanto os últimos membros da guarda de Allende deixam o palácio rendendo-se as tropas inimigas, o presidente dentro do Salão da Independência, no segundo andar do palácio, suicida-se com dois tiros contra a cabeça, com um fuzil AK 47, com o qual havia sido presenteado por Fidel Castro na ocasião de sua vista ao Chile em 1971.

Os que sobreviveram ao ataque, rendidos foram levados aos quartéis onde foram fuzilados. Três dias após o golpe o congresso é fechado, os integrantes da Unidade Popular, partido de Allende, são brutalmente perseguidos, inaugurando uma era de repressão e medo no Chile.

Desta forma, a partir da queda do governo democrático chileno, o país deixa seu estado de sociedade liberal, mergulhando em uma horrenda ditadura com Pinochet no poder, onde em 17 anos de governo, trinta mil pessoas foram assassinadas e mais de cem mil foram presas e torturadas. O general Augusto Pinochet morreu no final de 2006, sem nunca ter sido efetivamente punido por seus inúmeros crimes.

 
Diferentes memórias e uma mesma data.
Enquanto a mídia explorava ao exagero o 11 de setembro norte americano, e o mundo assimilava estas “notícias” de forma estarrecida, uma outra memória, o 11 de setembro chileno, travava sua luta de resistência, sem grande divulgação na mídia, sem ocupar o centro dos debates sociais e intelectuais.

Nos 11 de setembro do século XXI, os Estados Unidos são atacados por aqueles que são contrários as suas regras, nos 11 de setembro do século passado, os Estados Unidos atacam para impor suas regras. No caso mais recente temos uma ampla cobertura da mídia em tempo real, levando os atentados ao mundo todo, despertando reflexões e debates em todos os cidadãos. Já no caso mais antigo temos um total silêncio, uma ditadura que impediu os chilenos de se manifestar, e um desconhecimento generalizado sobre o ocorrido. Enquanto os livros lançados em 2002, ano seguinte aos atentados norte-americanos, já trazem em suas páginas os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, ainda hoje, 37 anos depois do golpe de Estado do Chile, a história oficial ainda não se debruça sobre este tema, tão significativo para a história da latino-america.

Edilberto Florencio

* Artigo produzido em maio de 2010 junto a disciplina de História da América II, na Universidade Estadual Vale do Acaraú.

2 comentários:

Romário 23 de setembro de 2010 09:43  

Como um alienado tentando desalienar-se, eu, no 11 de setembro, procurava não sentir "dó", "pena", compaixão -digamos assim - dos norte-americanos nem temor aos muçulmanos (al-qaeda), mas não tinha jeito; sempre me deixava levar pela mídia e pela maioria à minha volta.
Faltava ter conhecimento de um fato como esse - no qual a única coisa que eu conhecia eram as atrocidades e genocídio do General Pinochet.
Parabéns pelo trabalho cara!

Romário 23 de setembro de 2010 09:45  

Como um alienado tentando desalienar-se, eu, no 11 de setembro, procurava não sentir "dó", "pena", compaixão -digamos assim - dos norte-americanos nem temor aos muçulmanos (al-qaeda), mas não tinha jeito; sempre me deixava levar pela mídia e pela maioria à minha volta.
Faltava ter conhecimento de um fato como esse - no qual a única coisa que eu conhecia eram as atrocidades e genocídio do General Pinochet.
Parabéns pelo trabalho cara!

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